Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Silêncio


Silêncio - Barca - Serra da Aboboreira - Amarante
Fotografia de Artur Matias de Magalhães

Silêncio

"Eu estou aqui, e não há nada para dizer. Se houver entre vós alguém que queira ir a um sítio, pode ir a qualquer momento. O que pedimos é o silêncio; mas o silêncio exige que eu continue a falar. Experimentai dar um empurrão a um pensamento: cairá facilmente; mas aquele que empurra e o pensamento que é empurrado, ambos produzem esse entretenimento que se chama discussão. Vamos ter uma mais tarde? Ou simplesmente podemos decidir que não vamos ter uma discussão. Como queiram. Mas agora temos os silêncios e as palavras fazem - ajudam a fazer - os silêncios. Eu não tenho nada para dizer e estou a dizê-lo e isto é poesia; a poesia que eu necessito."

John Cage, Conference about nothing, Silence

Advertência


Eulália - S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães

Advertência

A verdade do que escrevo não é talvez
a exacta realidade de quem me lê.
Mas é o que de mais fundo e mais atento
existe na minha condição de amar as
coisas e as pessoas.
A esta condição me devo.

Maria Eulália Macedo

Domingo, 5 de Julho de 2009

Coldplay - The Scientist

Coldplay - The Scientist

Dr. Pinho

Dr. Pinho

Sábado, 4 de Julho

Depois da faena dá-se a volta à arena

Já se disse demasiado sobre o gesto tauromáquico (digamos) de Manuel Pinho, sobre a pressa de Francisco Louçã em enfiar a carapuça (digamos) dirigida a Bernardino Soares e sobre a urgência suicida de um Governo que, se não beneficiasse de dois meses de praia e langor pelo meio, dificilmente chegaria a Setembro. De resto, não era necessário o debate do estado da Nação para mostrar o estado actual dos sujeitos que mandam nela, e quanto à "vergonha" da insólita imagem ter chegado à imprensa internacional, hesito entre o que será menos embaraçoso de justificar a um estrangeiro civilizado: os cornos que o dr. Pinho mostrou ao deputado comunista ou o facto de possuirmos deputados comunistas.
Por mim, achei a entrevista do ex-ministro à SIC Notícias mais reveladora que a lide parlamentar do ministro. Em vinte minutos de conversa teoricamente destinada a exibir arrependimento, o dr. Pinho soltou o "lado humano" e exibiu o curioso espécime que tutela a nossa Economia desde 2005.
O dr. Pinho, que "resolveu" o "negócio" das minas de Aljustrel cinco minutos antes de o anunciar às câmaras de televisão, "sente" que "deu algo de volta a um país" que "adora". Defende que "o português" é "gente muito boa". "Admira imensíssimo" o eng. Sócrates. Fora de Portugal, admira imenso o Presidente Lula, visto que fazem anos com um dia de diferença e este ano "apagaram as velas juntos". Queixa- -se do sistema nacional de saúde, e lembra que a operação aos olhos de uma familiar "correu pessimamente" e a Ordem dos Médicos nunca lhe respondeu a uma carta, a ele, que "foi ministro durante quatro anos e meio". Tem "muito orgulho em ter participado num governo que fez reformas extremamente importantes" e que quis "rasgar algumas situações". Refere quatro reformas "fantásticas": a Segurança Social ("um acto de grande generosidade deste governo"); o ensino ("os miúdos que têm aulas durante todo o dia, que têm aqueles computadores, o inglês, isso tudo…"); as leis laborais ("houve o bom senso de criar um mercado de trabalho mais flexível"); e, "passe a imodéstia", as energias renováveis, cuja importância explicou detalhadamente: "É através das energias renováveis que Portugal é mais admirado a nível internacional." Porquê? Porque "o grande desafio que temos neste século é a questão das 'alterações climáticas', e se nada se fizer até ao fim do século a temperatura média do planeta aumenta seis graus". Jura? E? "É catastrófico, os nossos bisnetos vão ter de emigrar para outro planeta."
Evidentemente, há muito que o dr. Pinho não vive neste.

Retirado daqui.

Balanço

Balanço

Leia aqui o balanço desta legislatura, em termos de Educação, feito por duas pessoas distintas - uma completamente afastada da realidade e presa a um mundo que só existe na sua cabeça; a outra absolutamente com os dois pés assentes no chão e conhecedora profunda e lúcida dos problemas que nos afligem e minam a Escola Pública.

Profs


Dunas - Erg Chebbi - Merzouga - Sahara - Marrocos
Fotografia de Artur Matias de Magalhães

Profs

Sábado, 16 horas, Aquacool, secção de cabeleireiro.
Duas professoras encontram-se, por acaso, e perante o meu ar atónito, conversam.
E qual é o tema da conversa?
Fichas de avaliação de professores, registos diversos para aqui e para ali, grelhas, grelhinhas e grelhados, observações de aulas, bons, muito bons e excelentes... e tirem-me deste filme que os profs portugueses estão praticamente pirados!

Sorry, Srª Ministra, a vida não se resume a esta porcaria.
É que continua a existir sol lá fora, exposições para ver, montes para calcorrear, ondas para furar, conchas para apanhar, mesas de café para ocupar, conversas despreocupadas para alimentar, mato para cortar, giestas para podar, países para descobrir, livros para ler, músicas para arrepiar, paixões para viver, sorrisos cúmplices para dar, oásis frescos para desfrutar, dunas para transpor, silêncios para escutar...
Um raio a parta, Srª Ministra, pelo estado em que deixa a Educação do meu país, pelo estado de exaustão em que deixa os professores em resultado de trabalho árido e estéril, completamente improdutivo e desnecessário, cada vez mais afastado da nossa principal preocupação - os alunos.
Evidentemente que o raio é aqui usado em sentido figurado só para exprimir a minha fúria. De resto, desejo-lhe, sinceramente, muitos anos de vida consumida pelo remorso por tudo aquilo que deixa atrás de si, agora que se aproxima a passos largos a hora de fechar a porta.
Quanto a nós, zecos no terreno, apanharemos os cacos por si feitos e tentaremos colá-los esperando que jamais, mas jamais, esse posto seja ocupado por outro alguém da sua estirpe.

Sábado, 4 de Julho de 2009

Querida Eulália


Maria Eulália Macedo - S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães

Querida Eulália

“Querida Eulália

Escrevi-te uma carta. Uma carta entreaberta. Uma carta de amor. Hoje não serei grave, porque não é dia de endurecer o rosto e a alegria é para os vivos, como disse o Almada, a coisa mais séria da vida! Hoje é um dia alegre, querida Eulália, porque se reeditam as tuas Histórias de poucas palavras, que não é um livro, mas uma prova de amor, a confissão poética de que o esquecimento, a morte e as trevas que tantas vezes escurecem os nossos corações não terão a última palavra. As tuas Histórias de poucas palavras não são apenas páginas impressas, amortalhadas numa capa bonita; não se trata de um livro como outros livros: fala do milagre de ser e existir no espaço e no tempo, fala do sabor das amoras, da alegria do mundo. Eu não li as tuas Histórias de poucas palavras, querida Eulália, eu vivi-as tão intensamente, que a tua mãe foi, por um momento, a minha mãe; depois foi o cheiro húmido da terra, a intimidade de um gesto condescendente com a morte, a vida inteira redimida numa palavra, algo mais puro ainda; depois foram os retratos, os antigos retratos que habitam o teu mundo, Eulália, esses fantasmas que habitam o meu mundo, como se tivéssemos vivido na mesma casa, na mesma casa desde sempre, porque a tua casa é antiga como o Marão, antiga como o mundo.
Escrevi-te uma carta, esta carta entreaberta. Uma carta de amor. Escrevi-a porque sei como são as manhãs transparentes de Fevereiro, porque também eu suspendo a respiração à hora da chegada do correio. Escrevi-a porque nasci num mundo de homens que cabe nas caixas que guardam os livros que herdaste da tua avó paterna; mas estas tuas Histórias de poucas palavras não cabem neste livro, como não cabem nos livros que herdaste da tua mãe; nelas existe um mundo de mulheres, de mulheres que são lugares recuados em que as mãos descobrem os filhos, esses lugares fundos, luminosos por dentro; essas mulheres que são como mesas para que os filhos cresçam em seu redor; que são casas em que há afectos, como brinquedos, espalhados pelo chão; as mulheres de Histórias de poucas palavras são isso e outra coisa, ou nem uma coisa nem outra, não têm nome ou chamam-se Maria Ondina, Olímpia, Maria Branca ou Lídia; podem ser as mulheres do Marão (de que não falam as Crónicas da Raça) ou as mulheres da tua Rua; podem ser as mulheres da minha rua, da minha infância, mulheres sem idade, carpindo as perdas, lambendo as feridas ou amadurecendo o útero na opacidade comovida da sua juventude.
Querida Eulália, escrevi-te esta carta porque conheço a tua terra como se nela tivesse nascido ou nela tivesse morrido, antes desta diáspora; conheço o teu Rio, comove-me sempre a tua Nossa Senhora da Ponte, com o seu sorriso de granito e o Filho nos braços. Também eu amo Pascoaes, Eulália: recordo-me do Poeta a enrolar um cigarro no escrupuloso labor dos dedos telúricos, recordo-me dos versos: “Quem és tu? De onde vens? Na tua fronte/ Paira o vago crepúsculo infinito/ Da distância... […] Há nas tuas palavras um abismo./ Ouvindo-as logo sinto uma vertigem,/ E, em sobressalto, chora e se lastima/ O que, em mim, é vedado, oculto e virgem./ A parte indefinida do meu ser/ Ama a sombra espectral em que desvairas.../ E nem, ao menos, posso compreender/ Esta força amorosa que me leva/ Para a tua loucura!”
Escrevi esta carta, querida Eulália, porque conheço o rumor dos dias, a lenta passagem das horas. Escrevi-a porque conheci a tua casa: o S. Jorge que guarda a entrada nas pausas da sua luta eterna contra a serpe; o granito por fora, as madeiras por dentro; os velhos livros, os retratos espectrais, o modo natural e orgânico como a casa cresce e se abre para um jardim, com flores e árvores de fruto numa certa desarrumação romântica. Escrevi esta carta de amor porque me comove a tua lucidez, o modo como arrastas a voz oracular, que se exprime em aforismos e se sobrepõe ao meu pensamento. Escrevi-a, querida Eulália, porque escuto a urze e conheço o silêncio das tardes de Outono, quando os pássaros não voam e as nuvens se deitam na cama dos rochedos mais altos.
Nas tuas Histórias de poucas palavras pulsa uma comovida humanidade, um amor raro pela terra, sem asfixia; um amor raro pelas pessoas, sem paternalismos ou maternalismos; um amor raro que habita quem acredita e inaugura nas suas palavras um emergente «Ciclo do Amor». Querida Eulália, não sei como dizer-te que sinto que guardas o futuro. Nasceste em Amarante; mas tu não pertences a Amarante, nem ao mundo, que o mundo é exíguo para pessoas com as tuas dimensões. Tu pertences, nas palavras de Sophia, à raça daqueles que “percorrem o labirinto/ Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”. Tu pertences a Deus.
«Serás tu o Cristo, Maria Eulália?» “Não casei, não ganhei dinheiro, nem sei de sistemas políticos para salvar a humanidade”. O que é que te salva, Maria Eulália? O que é que move a tua mão escrevente. O poeta José Tolentino Mendonça disse que “o que move a mão escrevente é uma qualquer compaixão pela vida, nua, pobre, passada, inocente, esquecida, sussurrante, amante, quase nada. […] «E a ti, o que é que te salva?» Oh, os que não sabem que a mão escrevente é a mão que salva!”
Vou terminar esta carta, Eulália. Desculpa-me. O que poderia eu dizer sobre ti ou sobre as tuas Histórias de poucas palavras? O que sei eu? Tinhas meio século de vida quando eu vi pela primeira vez a luz; nasceste no Equinócio da Primavera, eu nasci no Equinócio de Outono, talvez por isso a tua juventude e a minha velhice nos torne tão próximos. Por estes dias, as tuas Histórias de poucas palavras salvaram-me: “Nunca mais temerei os anjos metálicos da angústia e da destruição, podem vir purificar-me os lábios com uma brasa de fogo e de insatisfação”. E sempre que me lembrar de ti, estremecerei com os versos de Herberto Helder: “Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta/ do gosto, o entusiasmo do mundo”.

Sempre teu,
José Rui Teixeira”

Nota - Com os meu agradecimentos à Elsa C. que me enviou esta belíssima carta entreaberta, lida ontem, em público, a Maria Eulália Macedo.
A cerimónia foi bela e bela é a homenageada!
 
Creative Commons License This Creative Commons Works 2.5 Portugal License.